
Ela vinha de uma experiência de vertigem, dor, estranhamento... Via-se naquele sonho vivendo a lembrança de um sonho anterior que se repetia. Ela era outra e estava nua. Alguém apontava para debaixo de seu antebraço onde havia um nódulo. Aquilo levaria à morte e ela via depois disto seu corpo multifacetado em várias partes e membros que se desencontravam na imágem especular daquela outra.
O despertador fez soar algo inusitado. Seus olhos estavam molhados e ela os abria e fechava sentindo que havia chorado em algum momento anterior ao soar da música de um autor que tinha composto aquele sentimento de vertígem diante da possibilidade de morrer e da dor de sentir-se com a ponta dos pés mantendo-se ligada ao chão para não cair no nada, no abismo.
Aquele despertador havia acionado o rádio e ela foi se descolando do sonho e acordou com a música abissal. Ela abriu os olhos com o sentimento onírico misto às imagens do seu quarto. Arpejos e pizzicatos dissonantes prolongavam seu sonho onde ela era uma estranha de si.
Levantou o dorso abraçando os joelhos e ouviu a música vibrar pelo apartamento; sua casa onde vivia só desde que tinha perdido a esperança no casamento. Foram três tentativas de se casar. Ela concluiu que não podia compartilhar sua casa uma vez que sua solidão necessária tornava o ambiente angustiante para o outro. Ela precisava estar consigo em certos instantes, como aquele em que ouvia a música soar e não acordá-la, pois o sonho daquela noite tinha o brilho dos acordes fortes e fracos que não tinham um nada a ver com nada.
Nada a ver com nada era um modo de ver a vida. Ver o nada pelas frestas que significavam algo era uma curiosidade literária e nada científica. Nada lhe interessava muito. Esse nada sem sentido retumbava na impossibilidade de adivinhar para onde iria a linha melódica que ela podia apenas desconfiar. Seu ouvido atento vivia o êxtase de encontrar naquele som o eco de sua identidade desintegrada em múltiplas facetas do sonho.
Foi com esforço que se soltou dos joelhos, pegou no maço que estava no criado mudo um cigarro e voltou àquela posição, apesar de manter o braço direito um pouco solto fazendo movimentos de batuta de regente com a fumaça que tomava o quarto e ia mostrar-se na fresta de luz que entrava entre a cortina. A fumaça de azul acinzentado desenhava o lugar do sol irradiando naquele lugar que ia da janela ao pé de sua cama.
A música lhe arrancava golfos de gozo e ela pensava que não poderia perder a oportunidade de ir até o último timbre. – Que bom seria se a música não acabasse! Pensou num murmúrio interno. Como termina o Bolero de Ravel, a música deu lugar a uma locução irritante de um homem. Não se importou em saber o que aquela voz grave pasteurizada dizia sobre o nome do autor da obra. A audição era única. Sabia que nunca mais ouviria aqueles acordes. O fim do último arpejo de violino deixou-a em um silêncio diante do qual se ouvia os outros sons do rádio que insistia em continuar e a vassoura que a empregada esfregava no corredor atrás da porta.
Apagou o cigarro na guimba depois do último trago amargo. Deitou-se morta de cansaço. Acordara finalmente. Tratou de desligar o rádio no controle remoto e ficou com o ruído da vassoura e o barulho de crianças que brincavam na rua.
Eram nove horas da manhã. Aquela música tinha uma reverberação em sua memória e o travesseiro que reservava para casos amorosos estava vazio como seu coração. Teve medo da banalidade do dia que iria começar naquela segunda-feira. O café, outro cigarro, a fome e a voz da empregada que falava sobre algo que a vizinhança comentava sobre ela. Todos a consideravam esquisita e outros tinham medo dela como quem teme a própria loucura.
Ouviu da janela aberta da sala com espanto um grito, depois um choro alto. Uma criança gritava porque caíra e agora seu cachorro lambia seu rosto e bebia as lágrimas. Ela sorriu.
Tomou o café, um leite com chocolate. Pegou seu caderno e começou a esboçar o que sentia com carvão. O preto e o branco lhe salvavam do horror que tinha naquele instante de voltar à banalidade da vida. Desenhou os acordes, a dissonância e a loucura. Dependurou o papel colado na parede.
Olhou a obra fixada com fita crepe e fez outro desenho com aquarela amarela e preta. Sua insanidade mental era maravilhosa. Seu marchand ficaria contente porque ele saberia do valor de sua arte em reais. Pelo resto do dia desenhou a música desde o sonho até o último timbre.
Ao final do dia estava morta. Mas uma morta-viva.

Agradeço pelo convite, vim, li e gostei muito. Acabei por conferir a nota máxima e nem poderia ser diferente. Aparecerei mais vezes, foi um prazer conhecer você e seus textos. Um abraço.
ResponderExcluirEscrevi a palavra divulgá-lo errado, estou consertando. Parabéns pelo Blog.Volte outras vezes ao Compartilhando as Letras, para mim é uma alegria.
ResponderExcluirBerenice, Seus textos são muito bons.Gostei de vir aqui. Vc escreve bem,deve divulgálos mais nas diversas redes sociais como:dihitt,facebook,orkut.nick ninja etc....
ResponderExcluirO conto sobre Anita está bom, mas tem pega prum mais longo romance.
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