sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Paz em Pânico

Como os dados oficiais anunciam notícias de jornais e das demais fontes informativas que estamos em tempos de paz, temos, em tese, motivo suficiente para estarmos leves, seguros e sem medo ou angústia que deriva deste medo. Temos, segundo estes dados e fontes, motivos de sobra para brindar o triunfo de tempos de calmaria.

Mas o fato é que vejo muita gente dizer que tem síndrome do pânico.E se estas pessoas se referem ao pânico em que se encontram quando tudo está na santa paz, vem o termo “síndrome” da medicina para dar sentido ao que não haveria razão para existir. Pois se estamos em tempos de paz, pois se no Brasil não há guerra... Síndrome: é o nome do discurso médico para dizer de algo que tem razão de suposto conhecimento do funcionamento cerebral perturbado.
Mas será que estamos mesmo em tempos de paz?

Há poucos dias vi pela TV uma reportagem onde crianças das favelas do Rio de Janeiro escreviam a palavra Paz nos muros. Era a comemoração de uma suposta vitória contra a guerra civil que é travada nas favelas de várias cidades deste país em nome do lucro do crack, da propina de policiais e políticos (há também os juízes e advogados). A reportagem dava a entender que a paz foi alcançada, malgrado as mortes decorrentes destes confrontos. Ouvia aquela notícia e eu pensava comigo: Seria tão bom se a boa notícia do telejornal fosse verdade!

Mas o telejornal dá a boa nova para que a audiência fique feliz e acredite que esta guerra acabou com o narcotráfico nas favelas do Rio e todos os moradores da favela poderão viver e transitar tranquilamente sem ameaças da indústria das drogas e das armas.

E a desconfiança sobre esta pacificação nos morros, a consciência, ainda que seja apenas uma desconfiança, de que seria muito bom para ser verdade que todos temos uma vitória conquistada pelo exército aliado à polícia militar vai levar as crianças que continuam vivendo nestas favelas a acreditarem que o que elas sabem (as crianças não são tolas) sobre a ameaça que continua a existir é um sentimento intitulado de pânico patológico. Ouvi repórteres falarem sobre o trauma que “ficou” nestas pessoas (adultos e crianças) e esta palavra “trauma” quer passar aos telespectadores, como se todos fossem idiotas, que não há mais razão real para pânico.

Então, nas favelas do Rio de Janeiro não há mais guerra civil, ou melhor, guerra civil nunca houve. Houve uma vitória contra os traficantes que foram presos e vencidos pelos heróis da pátria e o que estas pessoas que percebem que o que há, se muito, é apenas uma trégua. Então, se é preciso acreditar na versão da imprensa televisiva, as pessoas com o sentimento que decorre de uma realidade de ameaça à vida vão receber o diagnóstico de síndrome do pânico e o médico, sem outro recurso a que lançar mão, irá prescrever o remédio tranqüilizante de todos os tipos e de todos os laboratórios.

Maravilha. Não moro na favela. Estou aparentemente segura na minha propriedade privada. Sinto, entretanto, o coração disparado como se há qualquer momento eu possa ser atingida por uma rajada de metralhadora.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Crônica do Sem-Fim

Mais uma vez enveredo madrugada afora. Mas desta vez mais leve. Não sei se pelo efeito de um champagne e de uma amiga que há tempos não encontrava que atravessa esta insônia perto de mim; mas hoje o silêncio que meu ouvido escuta não é pesado. A chuva torna a madrugada lírica na cidade de Belo Horizonte onde todo mundo lê alguma coisa (ou quase todo mundo) entre montanhas e se diz falando para as paredes:

- Nó! Mas que delícia essa chuvinha...

O dia foi abafado e nublado. Quase sofri. Mas a noite trouxe a surpresa de um re-encontro com uma amiga que anda como muitos de nós: essa corda bamba sem sombrinha. É difícil ter tempo para os amigos. Nada posso a acrescentar quanto a isto do que diz o lirismo que está na letra de Sinal Fechado de Paulinho da Viola.

E na conversa adiada ouvi desta amiga sobre outros amigos que não me esqueceram. Estou feliz porque soube que há gente que sabe do quanto eu valho. Embora eu quase não veja essas pessoas há anos, soube que elas ainda lembram meu nome de difícil dicção.

Não sei se o difícil é entender alguém que não se inseriu no sistema ou se a amizade se perde na precariedade inerente a vida. Sou eu a escrever (e isto é vagabundear) enquanto o que tem valor é o trabalho tecnocrata que move a roda capitalista. Papo de maluco? Prefiro a loucura de ouvir este silêncio que é o nada do que ser alguém cujos humores variam de acordo com a oscilação da bolsa de valores. Muitos há que são assim. Os mineiros são, em muitos casos, poetas loucos embriagados. Quantos bares há nesta capital das montanhas! Há até estatística para provar o quanto é preciso de pontos de encontros boêmios para os mineiros.

Hoje sei que a insanidade é normal e frutífera. Não me apavoram os que me querem impingir o rótulo da tal “bipolaridade” de que os psiquiatras tanto precisam.

A insanidade está em querer colocar aqui um ponto final. Esta crônica é como a vida. Terminará quando eu morrer.