Como os dados oficiais anunciam notícias de jornais e das demais fontes informativas que estamos em tempos de paz, temos, em tese, motivo suficiente para estarmos leves, seguros e sem medo ou angústia que deriva deste medo. Temos, segundo estes dados e fontes, motivos de sobra para brindar o triunfo de tempos de calmaria.
Mas o fato é que vejo muita gente dizer que tem síndrome do pânico.E se estas pessoas se referem ao pânico em que se encontram quando tudo está na santa paz, vem o termo “síndrome” da medicina para dar sentido ao que não haveria razão para existir. Pois se estamos em tempos de paz, pois se no Brasil não há guerra... Síndrome: é o nome do discurso médico para dizer de algo que tem razão de suposto conhecimento do funcionamento cerebral perturbado.
Mas será que estamos mesmo em tempos de paz?
Há poucos dias vi pela TV uma reportagem onde crianças das favelas do Rio de Janeiro escreviam a palavra Paz nos muros. Era a comemoração de uma suposta vitória contra a guerra civil que é travada nas favelas de várias cidades deste país em nome do lucro do crack, da propina de policiais e políticos (há também os juízes e advogados). A reportagem dava a entender que a paz foi alcançada, malgrado as mortes decorrentes destes confrontos. Ouvia aquela notícia e eu pensava comigo: Seria tão bom se a boa notícia do telejornal fosse verdade!
Mas o telejornal dá a boa nova para que a audiência fique feliz e acredite que esta guerra acabou com o narcotráfico nas favelas do Rio e todos os moradores da favela poderão viver e transitar tranquilamente sem ameaças da indústria das drogas e das armas.
E a desconfiança sobre esta pacificação nos morros, a consciência, ainda que seja apenas uma desconfiança, de que seria muito bom para ser verdade que todos temos uma vitória conquistada pelo exército aliado à polícia militar vai levar as crianças que continuam vivendo nestas favelas a acreditarem que o que elas sabem (as crianças não são tolas) sobre a ameaça que continua a existir é um sentimento intitulado de pânico patológico. Ouvi repórteres falarem sobre o trauma que “ficou” nestas pessoas (adultos e crianças) e esta palavra “trauma” quer passar aos telespectadores, como se todos fossem idiotas, que não há mais razão real para pânico.
Então, nas favelas do Rio de Janeiro não há mais guerra civil, ou melhor, guerra civil nunca houve. Houve uma vitória contra os traficantes que foram presos e vencidos pelos heróis da pátria e o que estas pessoas que percebem que o que há, se muito, é apenas uma trégua. Então, se é preciso acreditar na versão da imprensa televisiva, as pessoas com o sentimento que decorre de uma realidade de ameaça à vida vão receber o diagnóstico de síndrome do pânico e o médico, sem outro recurso a que lançar mão, irá prescrever o remédio tranqüilizante de todos os tipos e de todos os laboratórios.
Maravilha. Não moro na favela. Estou aparentemente segura na minha propriedade privada. Sinto, entretanto, o coração disparado como se há qualquer momento eu possa ser atingida por uma rajada de metralhadora.

