sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Paz em Pânico

Como os dados oficiais anunciam notícias de jornais e das demais fontes informativas que estamos em tempos de paz, temos, em tese, motivo suficiente para estarmos leves, seguros e sem medo ou angústia que deriva deste medo. Temos, segundo estes dados e fontes, motivos de sobra para brindar o triunfo de tempos de calmaria.

Mas o fato é que vejo muita gente dizer que tem síndrome do pânico.E se estas pessoas se referem ao pânico em que se encontram quando tudo está na santa paz, vem o termo “síndrome” da medicina para dar sentido ao que não haveria razão para existir. Pois se estamos em tempos de paz, pois se no Brasil não há guerra... Síndrome: é o nome do discurso médico para dizer de algo que tem razão de suposto conhecimento do funcionamento cerebral perturbado.
Mas será que estamos mesmo em tempos de paz?

Há poucos dias vi pela TV uma reportagem onde crianças das favelas do Rio de Janeiro escreviam a palavra Paz nos muros. Era a comemoração de uma suposta vitória contra a guerra civil que é travada nas favelas de várias cidades deste país em nome do lucro do crack, da propina de policiais e políticos (há também os juízes e advogados). A reportagem dava a entender que a paz foi alcançada, malgrado as mortes decorrentes destes confrontos. Ouvia aquela notícia e eu pensava comigo: Seria tão bom se a boa notícia do telejornal fosse verdade!

Mas o telejornal dá a boa nova para que a audiência fique feliz e acredite que esta guerra acabou com o narcotráfico nas favelas do Rio e todos os moradores da favela poderão viver e transitar tranquilamente sem ameaças da indústria das drogas e das armas.

E a desconfiança sobre esta pacificação nos morros, a consciência, ainda que seja apenas uma desconfiança, de que seria muito bom para ser verdade que todos temos uma vitória conquistada pelo exército aliado à polícia militar vai levar as crianças que continuam vivendo nestas favelas a acreditarem que o que elas sabem (as crianças não são tolas) sobre a ameaça que continua a existir é um sentimento intitulado de pânico patológico. Ouvi repórteres falarem sobre o trauma que “ficou” nestas pessoas (adultos e crianças) e esta palavra “trauma” quer passar aos telespectadores, como se todos fossem idiotas, que não há mais razão real para pânico.

Então, nas favelas do Rio de Janeiro não há mais guerra civil, ou melhor, guerra civil nunca houve. Houve uma vitória contra os traficantes que foram presos e vencidos pelos heróis da pátria e o que estas pessoas que percebem que o que há, se muito, é apenas uma trégua. Então, se é preciso acreditar na versão da imprensa televisiva, as pessoas com o sentimento que decorre de uma realidade de ameaça à vida vão receber o diagnóstico de síndrome do pânico e o médico, sem outro recurso a que lançar mão, irá prescrever o remédio tranqüilizante de todos os tipos e de todos os laboratórios.

Maravilha. Não moro na favela. Estou aparentemente segura na minha propriedade privada. Sinto, entretanto, o coração disparado como se há qualquer momento eu possa ser atingida por uma rajada de metralhadora.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Crônica do Sem-Fim

Mais uma vez enveredo madrugada afora. Mas desta vez mais leve. Não sei se pelo efeito de um champagne e de uma amiga que há tempos não encontrava que atravessa esta insônia perto de mim; mas hoje o silêncio que meu ouvido escuta não é pesado. A chuva torna a madrugada lírica na cidade de Belo Horizonte onde todo mundo lê alguma coisa (ou quase todo mundo) entre montanhas e se diz falando para as paredes:

- Nó! Mas que delícia essa chuvinha...

O dia foi abafado e nublado. Quase sofri. Mas a noite trouxe a surpresa de um re-encontro com uma amiga que anda como muitos de nós: essa corda bamba sem sombrinha. É difícil ter tempo para os amigos. Nada posso a acrescentar quanto a isto do que diz o lirismo que está na letra de Sinal Fechado de Paulinho da Viola.

E na conversa adiada ouvi desta amiga sobre outros amigos que não me esqueceram. Estou feliz porque soube que há gente que sabe do quanto eu valho. Embora eu quase não veja essas pessoas há anos, soube que elas ainda lembram meu nome de difícil dicção.

Não sei se o difícil é entender alguém que não se inseriu no sistema ou se a amizade se perde na precariedade inerente a vida. Sou eu a escrever (e isto é vagabundear) enquanto o que tem valor é o trabalho tecnocrata que move a roda capitalista. Papo de maluco? Prefiro a loucura de ouvir este silêncio que é o nada do que ser alguém cujos humores variam de acordo com a oscilação da bolsa de valores. Muitos há que são assim. Os mineiros são, em muitos casos, poetas loucos embriagados. Quantos bares há nesta capital das montanhas! Há até estatística para provar o quanto é preciso de pontos de encontros boêmios para os mineiros.

Hoje sei que a insanidade é normal e frutífera. Não me apavoram os que me querem impingir o rótulo da tal “bipolaridade” de que os psiquiatras tanto precisam.

A insanidade está em querer colocar aqui um ponto final. Esta crônica é como a vida. Terminará quando eu morrer.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O Silêncio em Branco

A cidade está cheia de gente nos bares e festas vivendo o tão esperado sábado. O trabalho mental que exerço durante a semana não corresponde ao calendário das pessoas comuns. Não estou mais nos bares aos sábados porque não deixo de elaborar meu pensamento inquieto porque há uma mesa, porque o efeito do álcool faz as pessoas falarem sem escolher as palavras ou o tema do que se fala, do que se tagarela nas noites de lazer que a cidade oferece. Já me cansei dos sábados porque o ambiente dos bares e o efeito da bebida não me faz frear esta busca solitária que muitos conseguem apaziguar (alguns nem sabem o que é isto) com drogas lícitas e ilícitas no delírio de se sentirem cercados de “bons companheiros”.

Fico em casa e escrevo a não sei quem. Digo que não sei a quem escrevo porque não sei se o que preciso colocar nestas linhas é passível de significação. Aliás, sei que o que preciso escrever é significante e é o silêncio que ouço com a curiosidade de um adolescente que acaba de descobrir, ao olhar para uma mulher bonita, seu desejo que desabrocha; ou como o mútsico erudito que encontra na música contemporânea que vem de seu instrumento a frase revelada como algo inusitado.

Ouço o silêncio dos meus pensamentos que são fragmentos, são arte abstrata sem forma e sem significação. Não procuro nem mesmo a harmonia porque a realidade é bruta.

Então, a quem interessa ler o que escrevo em um tempo em que quando algo não tem um sentido de auto-ajuda ou do THE END do Best seller (que é o resultado de uma trama estruturada que cria problemas banais e oferece a solução no estase do final) não tem a cumplicidade de um leitor (a). Será que não quero escrever nada que não seja minha louca desestrutura sem receita de argumento ou estilo?

Não.Eu quero o estilo do que se escuta do silêncio e da falta do significado que revela um signo que passa desapercebido, mas é o sumo da vida.

Guardo esta pedra bruta porque sei o quanto valem meus pensamentos desconexos. Sei a intensidade do que penso e a densidade do que desejo.

Publico isto neste blog e imagino que serei tomada por louca ou por alguém que nada tem a dizer. Mas o que digo é o silêncio, o que não significa. O que digo é esta página em branco que se segue e me persegue pelo que há na realidade da vida real que atordoa.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Esperança e o inusitado porvir

Muitas são as formas existentes de um ser humano exercer o poder. Um deles é o poder que alguns têm de fazer esperar. Talvez a desesperança seja pior, mas a espera longa, muitas vezes termina em um bolo, um silêncio e a ausência da recompensa pelo ato de esperar.

A espera pode ser pouco ousada e há também quem espere por "nada". Quanto àqueles que esperam que este escrito seja útil, estes são os que vão elogiar apenas os cânones literários. Alguns recorrem a formas que têm como suporte jornais, revista ou livros que são respaldados pela crítica literária e transitam nos circuitos culturais. Enquanto há para poucos estes jornais e revistas cults, para os outros milhares que escrevem ainda no papel de caderno com seu talento invisível e, portanto, irreconhecível, estes ficam submissos aos autores da moda.

A submissão se consuma em esperar ser o Outro cujas idéias são a imagem que se espera de um ser de conhecimento superior, um "notório saber".Outro modo, entre vários que há algures, é o poder que algumas pessoas exercem sobre o seu semelhante humano para fazer este segundo esperar. Há o relógio, uma hora marcada, um que não se atrasa porque está em posição inferior à daquele que faz este primeiro esperar sob qualquer pretexto.

Há muitos modos de esperar. Pode haver o modo de esperar uma menságem, a frenética espera da correspondência de um flerte... Há a palavra esperança até para os enfermos desenganados. Para os doentes de dor da alma, há a esperança de que os maus dias passem e o futuro chegue logo, trazendo o que a esperança promete: o alívio da dor de angústia.
Há também a espera de que um trabalho que foi iniciado termine com uma realização. Este tipo de espera pode piorar quando o olhar invisível por trás de quem trabalha, o tal Deus que todo mundo sabe (o ser superior que nos impinge a perfeição), seja este o Deus de qual nome ou religião tiver, Este nos impede de realizar sem aflição o trabalho feito e terminado no tempo e na qualidade possível. Mas ainda assim buscamos aflitos o impossível trabalho perfeito, a obra prima de Pica asso.

Esta seria uma carta de amor se houvesse a quem endereçá-la. Mas escrevo porque espero e penso a esperança e o esperar. Espero por quê? Por tudo. Pelo amor, pelo perfeito, pelo trabalho reconhecido e também por nada. Espero que o relógio ande e o dia de amanhã seja mais sereno do que esta aflição do que está porvir. Porque eu pressinto no silêncio o que é o porvir. Ouço os passos de um desconhecido e não sei o que ele quer. Pode ser um romance ou uma ilusão. Pode ser um contrato ou uma falsa promessa. Mas ouço os passos na rua de quem está me fazendo esperar por algo que não sei o que é. Sei que é algo que preciso saber o que é. Nem sei se é bom ou ruim. Mas é algo que espero há muito tempo.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Escrita Falida

Estou exausta. Trabalhei toda a noite para escrever um trabalho de conclusão de curso. Agora é assim. Eu tenho que me submeter à necessidade de trabalhar em qualquer coisa, não importa qual seja a ética do trabalho. Escrevi uma bobagem sobre teologia. Logo eu que sou (e sou convicta) uma pessoa agnóstica. Fiz o trabalho por uns poucos reais para pagar contas inadiáveis. Isto vem se repetindo e acho que estou no labirinto dos ghost-writters.

Hoje, por um momento, encontro tempo para a escrita. Mas a necessidade de escrever trabalhos acadêmicos ou revisá-los me tem tomado tanto tempo que fica difícil escrever uma narrativa. Tudo que me vem à cabeça neste instante é uma epígrafe de Clarice Lispector que diz que “a história não tem desfecho”. Não me socorre a memória para que eu lhe dê o nome do autor. Mas o fato é que encontrei neste conto um eco para minha concepção de narrativa. O mundo ficou pós-moderno e quase ninguém pensa mais em história. Há tanto tempo não ouço um caso. É tudo fragmento como no sistema de produção em série. O homem fabrica uma peça que ele não sabe para que serve e não entende que é vital para o funcionamento do produto da fábrica.

Leio Clarice Lispector ou Ligia Fagundes Teles em seus contos e me dou conta destes contos com um propositado inacabamento. O desfecho que você, leitor, quer encontrar ao fim de uma narrativa é um vício das telenovelas que têm o último capítulo onde todas as confusões se resolvem e a televisão proporciona o ópio que é a ilusão de um final feliz. É tão verdadeiro o fato de que a escrita não tem desfecho que algumas delas precisam sinalizar a última frase escrevendo “Fim”. Acho que este “Fim” existe em alguns livros para que o leitor não pense que lhe roubaram uma página do livro dele. Fica sempre algo por dar sentido e continuar fazendo a história que o leitor escolher. Isto é muito bom.

Mas se não há desfecho, é preciso começar a escrever com um tema. Clarice Lispector tem um estilo inalcansável porque ela é meu totem, meu mito, um gênio da escrita. Eu sou uma escritora falida. Sou “escritora falida” e sou personagem de Clarice em Onde Estivestes de Noite. Minha narrativa perdeu o brilho que o devaneio e o ócio de antes me proporcionavam e hoje escrevo para que outras pessoas assinem.

Neste ano de eleição, me propuseram que escrevesse um discurso para um político. O sujeito quer ser deputado federal, criar leis e é semianalfabeto. Fico pensando que pelos dez mil reais deste trabalho torpe posso passar um bom tempo lendo e comprando bons livros e me reabastecendo do fantástico que é a matéria da literatura. Isto aqui não é literatura, é claro. Mas é a escrita da personagem de C. L., isto é, “a escritora falida”.

Às vezes leio revistas ou passo os olhos em coisas que leio na internet. Está tudo sem argumento e cheio de layout.

Meu livro virá talvez quando este discurso for pago e eu tiver uns três meses para voltar a fatasmagoriar sem esta camisa de força que é a obrigação que a realidade impõe. Eu preciso comer, me vestir, pagar o concerto da impressora que está bem velha etc. Ainda bem que você não me lê, leitor de ontem. Tenho vergonha do discurso que preparo com promessas coerentes e éticas para um político corrupto. Minha escrita é confissão e ficará silenciada no segredo de alguém que escreve ao vento.

Tenho saudade de ti, meu leitor, que não lerás nada disto que está aqui. Tenho consciência de que minha escrita faliu e meu leitor é um fantasma. Talvez um fantasma falido ou um fantasma erudito, não sei. O que sei é que sendo uma “escritora falida” nestas linhas eu assumo a falência decretada e publico no blog que apenas um fantasma lê este decreto: a narrativa sucumbiu em minha mente e em meus escritos. Fica sacramentada a falência.

terça-feira, 16 de março de 2010

Nada a declarar

Escrever é uma necessidade na medida em que o anonimato vai me transformando em ninguém. Busco a escrita na esperança de que o leitor consiga sobrepor esse abismo que nos separa. Não sei formatar o que escrevo na estrutura do gênero literário e o meu pensamento não consegue encontrar um gênero coerente com a poesia ou a prosa. Talvez este seja um ensaio. Ensaio no sentido teatral da palavra. O que estiver escrito aqui um dia se transformará em algo. Neste momento escrevo porque minha imaginação vagueia como um fantasma órfão de pai. Minha mente é uma neblina, uma nuvem que não se concretiza e o leitor não poderá tocar o que eu penso. Não penso nada de mais. Penso que escrever pressupõe algo a se acrescentar ao leitor que consome informações e eu sou uma pessoa com a cabeça oca, eneblinada por pensamentos imperfeitos sobre o que é a mulher que seduz, a morte que seduz e esse abismo que existe entre o que estou a pensar e o leitor que não se arrisca a pensar sobre o quão é importante pensar em nada.

Veja esta neblina. Veja a nuvem. Você vê a forma, a cor que se adensa, mas se tocar a neblina, a nuvem, não poderá tatear o vapor como coisa concreta. A nuvem, a neblina e eu somos esse nada. O ensaio é de Ninguém. Pouco me importa se isto é loucura. Não peço perdão aos neuróticos se isto é esquizofrenia ou resultado de uma viagem de Êxtase.

O leitor não existe. Existe o contra-leitor que segura minhas mãos para que eu não escreva nada. Para que esta insignificância não cause o mal estar que a civilização transforma em material bélico.

Ensaio para que esta neblina repouse sobre o papel e minha cabeça fique mais leve. A neblina tem peso e densidade. Se é substancial ou utilitária...? Não é. Sinto muito. Não sou escrava de ninguém. Escrevo o que quero e quando quero. E digo mais: não preciso de disciplina para dizer que escrevo. Escrevo agora o que o leitor quer ouvir: estou escrevendo o que me dá na telha.

O capitalismo tem me feito muito mal. O comunismo ruiu com os ataques contra o direito de expressão. Não há ideologia que alguém possa sustentar neste mundo. Eu mesma não me sustento com a minha escrita.

O que são os direitos autorais de alguém que é Ninguém. Escrevo para sobreviver ao ócio que é pensar constantemente em algo vago que é a morte, a mulher, o míssil, a morte, o psiquiatra ou a prostituta.

Sei lá para que escrevi isto aqui. Isto pode, quem sabe, bagunçar o coreto harmônico das narrativas coesas e determinadas. Isto é um nada. O nada me absorve e eu adoeço e morro todos os dias. A mim me bastaria um olhar ou quase nada. O que será isto, meu deus?

segunda-feira, 1 de março de 2010

O primeiro dia útil


Ela vinha de uma experiência de vertigem, dor, estranhamento... Via-se naquele sonho vivendo a lembrança de um sonho anterior que se repetia. Ela era outra e estava nua. Alguém apontava para debaixo de seu antebraço onde havia um nódulo. Aquilo levaria à morte e ela via depois disto seu corpo multifacetado em várias partes e membros que se desencontravam na imágem especular daquela outra.

O despertador fez soar algo inusitado. Seus olhos estavam molhados e ela os abria e fechava sentindo que havia chorado em algum momento anterior ao soar da música de um autor que tinha composto aquele sentimento de vertígem diante da possibilidade de morrer e da dor de sentir-se com a ponta dos pés mantendo-se ligada ao chão para não cair no nada, no abismo.

Aquele despertador havia acionado o rádio e ela foi se descolando do sonho e acordou com a música abissal. Ela abriu os olhos com o sentimento onírico misto às imagens do seu quarto. Arpejos e pizzicatos dissonantes prolongavam seu sonho onde ela era uma estranha de si.

Levantou o dorso abraçando os joelhos e ouviu a música vibrar pelo apartamento; sua casa onde vivia só desde que tinha perdido a esperança no casamento. Foram três tentativas de se casar. Ela concluiu que não podia compartilhar sua casa uma vez que sua solidão necessária tornava o ambiente angustiante para o outro. Ela precisava estar consigo em certos instantes, como aquele em que ouvia a música soar e não acordá-la, pois o sonho daquela noite tinha o brilho dos acordes fortes e fracos que não tinham um nada a ver com nada.

Nada a ver com nada era um modo de ver a vida. Ver o nada pelas frestas que significavam algo era uma curiosidade literária e nada científica. Nada lhe interessava muito. Esse nada sem sentido retumbava na impossibilidade de adivinhar para onde iria a linha melódica que ela podia apenas desconfiar. Seu ouvido atento vivia o êxtase de encontrar naquele som o eco de sua identidade desintegrada em múltiplas facetas do sonho.

Foi com esforço que se soltou dos joelhos, pegou no maço que estava no criado mudo um cigarro e voltou àquela posição, apesar de manter o braço direito um pouco solto fazendo movimentos de batuta de regente com a fumaça que tomava o quarto e ia mostrar-se na fresta de luz que entrava entre a cortina. A fumaça de azul acinzentado desenhava o lugar do sol irradiando naquele lugar que ia da janela ao pé de sua cama.

A música lhe arrancava golfos de gozo e ela pensava que não poderia perder a oportunidade de ir até o último timbre. – Que bom seria se a música não acabasse! Pensou num murmúrio interno. Como termina o Bolero de Ravel, a música deu lugar a uma locução irritante de um homem. Não se importou em saber o que aquela voz grave pasteurizada dizia sobre o nome do autor da obra. A audição era única. Sabia que nunca mais ouviria aqueles acordes. O fim do último arpejo de violino deixou-a em um silêncio diante do qual se ouvia os outros sons do rádio que insistia em continuar e a vassoura que a empregada esfregava no corredor atrás da porta.

Apagou o cigarro na guimba depois do último trago amargo. Deitou-se morta de cansaço. Acordara finalmente. Tratou de desligar o rádio no controle remoto e ficou com o ruído da vassoura e o barulho de crianças que brincavam na rua.

Eram nove horas da manhã. Aquela música tinha uma reverberação em sua memória e o travesseiro que reservava para casos amorosos estava vazio como seu coração. Teve medo da banalidade do dia que iria começar naquela segunda-feira. O café, outro cigarro, a fome e a voz da empregada que falava sobre algo que a vizinhança comentava sobre ela. Todos a consideravam esquisita e outros tinham medo dela como quem teme a própria loucura.

Ouviu da janela aberta da sala com espanto um grito, depois um choro alto. Uma criança gritava porque caíra e agora seu cachorro lambia seu rosto e bebia as lágrimas. Ela sorriu.

Tomou o café, um leite com chocolate. Pegou seu caderno e começou a esboçar o que sentia com carvão. O preto e o branco lhe salvavam do horror que tinha naquele instante de voltar à banalidade da vida. Desenhou os acordes, a dissonância e a loucura. Dependurou o papel colado na parede.

Olhou a obra fixada com fita crepe e fez outro desenho com aquarela amarela e preta. Sua insanidade mental era maravilhosa. Seu marchand ficaria contente porque ele saberia do valor de sua arte em reais. Pelo resto do dia desenhou a música desde o sonho até o último timbre.

Ao final do dia estava morta. Mas uma morta-viva.

A louca da memória

A nostalgia tomou conta de mim esta manhã. Eu estava organizando meus guardados por conta de uma mudança de apartamento e me veio a memória da minha mais tenra juventude. Eu e minha namorada de colégio abraçados num retrato desbotado. Quando chega a meia idade os homens costumam esquecer a ternura que se experimenta no frescor do primeiro amor. Esta menina, hoje uma senhora que dizem que perdeu o juízo, me ensinou a amar pela primeira vez. Na verdade era uma paixão de adolescência. As pessoas maldizem os sentimentos da adolescência; mas era tudo tão digno, tão cheio de encanto e medo. Foi uma aventura de sentir a dois.

Ela se chama Anita. Anita tinha uma facilidade de escrever versos, histórias. Eu escrevo timidamente escondido no meu escritório. Já amei outras vezes e um destes amores me deu uma família e uma monotonia que deixa longe aquele frescor da primeira paixão. Vivemos, eu e minha mulher, uma vida em comum cheia de rotinas e sem grandes afetos. O casamento me deu uma relação de amor, mas de amor fraterno. Se ela lê qualquer referência à Anita nestas páginas teremos uma briga conjugal. Por isto mantenho estas palavras escondidas na memória e escrevo atrás do computador dizendo que tenho um relatório a fazer para a firma. Os malditos relatórios... Se minha mulher, Clarice, me pega nesta recaída de retirar estas memórias dos meus guardados terei muita dor de cabeça. Guardo estes resíduos em papéis e retratos em um lugar que só eu sei achar. Achar e guardar o que se perdeu com o decorrer da vida... Muitos acham que Clarice tem razão pelo ciúme quando, embriagado, ousava mencionar a história de amor que guardo em retratos desbotados, poemas escritos em guardanapos e o meu olhar que brilha quando se lembra daqueles tempos de amor fresco.

Acho que perdi a capacidade de amar. È como sempre me diziam ou como eu aprendi. Um homem precisa constituir uma família. Os laços se estabelecem no papel do cartório, no casamento religioso e na hipocrisia. Anita diria assim. Sempre tenho lá os meus casinhos. Minha mulher me jura que é fiel. Eu acredito. Clarice é muito ligada aos valores da tradicional família mineira. E isto é o avesso de Anita que sempre me ensinou a me aventurar na nossa crença na revolução de costumes. Odiávamos os caretas. Eu optei por ser um homem respeitado. Naquele tempo isto era ser careta. Anita, segundo me dizem, continuou se rebelando contra os padrões sociais, amou a poesia e a música... E dizem que está louca.

Outro dia, isto já tem uns seis meses, a vi cruzando a rua. O sinal estava fechado. Ela olhou para mim e como eu acenei e disse que tinha pressa, ela saiu cantarolando uma música antiga, uma melodia com uma letra sobre o sinal fechado. Em nossa época tudo tinha trilha sonora. Me senti tão longe daquela música que não me lembrava direito e fui correndo para uma reunião que foi um sacrifício. Em meio a uma discussão sobre a cotação do dólar me lembrei de Paulinho da Viola. Bom músico. Será um louco também? Nunca mais ouvi este cara.

Minha escolha por ter segurança, minha família, minha casa própria foi uma atitude bem pensada. Conheci Clarice num curso de psicologia. Hoje, com o diploma de psicólogo, sou corretor de imóveis e vendo o sonho da casa própria. São tantos os casais que se sentem radiantes no ato da compra (ainda que paguem juros altos pelo empréstimo que dura vinte anos); e eu tive o mesmo sonho e agora fiz outro empréstimo para uma cobertura. Meu carro impõe respeito. Minha posição de chefe de família tem responsabilidades e meu lugar é este: o sólido lugar de chefe de família.

Mas é que olhando estes retratos tudo isto parece tão insosso. Sinto falta da vertigem que era amar. Lembro-me, surpreso, do que fui, daquelas vezes em que Anita me levou convicto a sair em passeata contra a política da propriedade.

Sei que Anita está louca. Dizem que já foi, por duas vezes, internada. Deus me livre ter que suportar isto perto de mim. Sou um homem centrado.

O curso de psicologia me deu certas certezas que vão contra o que sinto e vejo nos velhos retratos, nos versos apaixonados e lindos e loucos de paixão que eram dedicados, vejam vocês, a mim.

Terei sido falso nos arroubos da juventude? Tudo que edifiquei entre propriedades e contratos é imprescindível Este sonho da casa própria que faz de mim um homem de equilíbrio me afasta de Anita. A saudade é dolorosa como o medo de perder minhas posses, minha mulher, minha família e o meu juízo.