Estou exausta. Trabalhei toda a noite para escrever um trabalho de conclusão de curso. Agora é assim. Eu tenho que me submeter à necessidade de trabalhar em qualquer coisa, não importa qual seja a ética do trabalho. Escrevi uma bobagem sobre teologia. Logo eu que sou (e sou convicta) uma pessoa agnóstica. Fiz o trabalho por uns poucos reais para pagar contas inadiáveis. Isto vem se repetindo e acho que estou no labirinto dos ghost-writters.
Hoje, por um momento, encontro tempo para a escrita. Mas a necessidade de escrever trabalhos acadêmicos ou revisá-los me tem tomado tanto tempo que fica difícil escrever uma narrativa. Tudo que me vem à cabeça neste instante é uma epígrafe de Clarice Lispector que diz que “a história não tem desfecho”. Não me socorre a memória para que eu lhe dê o nome do autor. Mas o fato é que encontrei neste conto um eco para minha concepção de narrativa. O mundo ficou pós-moderno e quase ninguém pensa mais em história. Há tanto tempo não ouço um caso. É tudo fragmento como no sistema de produção em série. O homem fabrica uma peça que ele não sabe para que serve e não entende que é vital para o funcionamento do produto da fábrica.
Leio Clarice Lispector ou Ligia Fagundes Teles em seus contos e me dou conta destes contos com um propositado inacabamento. O desfecho que você, leitor, quer encontrar ao fim de uma narrativa é um vício das telenovelas que têm o último capítulo onde todas as confusões se resolvem e a televisão proporciona o ópio que é a ilusão de um final feliz. É tão verdadeiro o fato de que a escrita não tem desfecho que algumas delas precisam sinalizar a última frase escrevendo “Fim”. Acho que este “Fim” existe em alguns livros para que o leitor não pense que lhe roubaram uma página do livro dele. Fica sempre algo por dar sentido e continuar fazendo a história que o leitor escolher. Isto é muito bom.
Mas se não há desfecho, é preciso começar a escrever com um tema. Clarice Lispector tem um estilo inalcansável porque ela é meu totem, meu mito, um gênio da escrita. Eu sou uma escritora falida. Sou “escritora falida” e sou personagem de Clarice em Onde Estivestes de Noite. Minha narrativa perdeu o brilho que o devaneio e o ócio de antes me proporcionavam e hoje escrevo para que outras pessoas assinem.
Neste ano de eleição, me propuseram que escrevesse um discurso para um político. O sujeito quer ser deputado federal, criar leis e é semianalfabeto. Fico pensando que pelos dez mil reais deste trabalho torpe posso passar um bom tempo lendo e comprando bons livros e me reabastecendo do fantástico que é a matéria da literatura. Isto aqui não é literatura, é claro. Mas é a escrita da personagem de C. L., isto é, “a escritora falida”.
Às vezes leio revistas ou passo os olhos em coisas que leio na internet. Está tudo sem argumento e cheio de layout.
Meu livro virá talvez quando este discurso for pago e eu tiver uns três meses para voltar a fatasmagoriar sem esta camisa de força que é a obrigação que a realidade impõe. Eu preciso comer, me vestir, pagar o concerto da impressora que está bem velha etc. Ainda bem que você não me lê, leitor de ontem. Tenho vergonha do discurso que preparo com promessas coerentes e éticas para um político corrupto. Minha escrita é confissão e ficará silenciada no segredo de alguém que escreve ao vento.
Tenho saudade de ti, meu leitor, que não lerás nada disto que está aqui. Tenho consciência de que minha escrita faliu e meu leitor é um fantasma. Talvez um fantasma falido ou um fantasma erudito, não sei. O que sei é que sendo uma “escritora falida” nestas linhas eu assumo a falência decretada e publico no blog que apenas um fantasma lê este decreto: a narrativa sucumbiu em minha mente e em meus escritos. Fica sacramentada a falência.

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