quarta-feira, 22 de junho de 2011

Eulália no Espelho

Fazia um calor horrendo de efeito estufa. A capital mineira, que já fora considerada como clima ideal para os enfermos até os anos 60 era uma sauna onde uma mulher dos seus 50 anos vivia os anos de 2000. Eulália tentava se defender debaixo do ventilador e lembrava mais uma vez do seu sonho de consumo: um aparelho de ar condicionado.
Ela vivia com pouco do que ganhava fazendo peças de trcot e sua expectativa era conseguir um dos raros alunos que tivera a sorte de encontrar e lecionar literatura; mas os alunos de literatura eram raros. Com alunos como alguns que tivera, as aulas eram pura fruição.
Vale dizer que neste ofício de ensinar a ler e escrever em português no Brasil (o chamado de país do futuro) significava ensinar-lhes o que precisassem para uma prova em tempo urgente. Por mais que tentasse, não conseguia que seus alunos se interessassem por boas leituras e o exercício da escrita. A Faculdade de Letras lhe custou muito empenho e teve em troca pouco porque sua cabeça tinha uma intensidade que só poderia se acalmar quando exercia uma atividade criativa.
Seu irmão lhe aconselhava os concursos públicos para ter um salário decente. Mas prova de concursos públicos exigia memória e malícias de quem se dedica a saber as armadilhas da múltipla escolha; o exercício da decoreba era violento demais para ela.
O calor diminuía no final da tarde. Eulália estava à procura da inspiração que não lhe socorria fazia quase um mês. Sem o sopro da palavra imagética ela se sentou diante do computador e começou a tentar escrever alguma coisa. A tela branca parecia muito bem com o vazio das palavras e ela achava que escrever qualquer coisa era falta grave. Aquela ausência das palavras que lhe ocorriam em sonhos esquecidos ou em momentos de fantasia lhe angustiava tanto que mal podia suportar a dor que sentia no peito. Era uma dor visceral. Sentia-se inútil sem a sua escrita e começou a ter vontade de que alguém lhe socorresse.
Pegou o telefone e ligou para os poucos amigos. Ela tinha poucos amigos porque só cultivava relações com pessoas que não ficassem incomodadas com a intensidade de suas palavras e de seu silêncio. Isto não a fazia mais só do que as outras pessoas. Mas a sua solidão era algo de que tinha consciência. Lembrou-se que uma amiga muito próxima que lhe falava de umas pílulas que tomava para o que ela chamava de ansiedade. Era Dalva: uma pessoa que Eulália conhecia desde a adolescência. Dalva lhe aconselhou que tomasse aquele remédio para essa dor da alma. Até então, Eulália achava que as dores da alma eram importantes para seu crescimento como ser humano. Mas aquela dor no peito quando estava ainda diante do computador e com os dedos imóveis para teclar o que quer que fosse lhe fizeram ligar para Dalva e pensar que precisava das tais pílulas daquela vez.
Experimentou o que Dalva dizia que era uma dose pequena. Adormeceu por um tempo que foi uma eternidade. E a dor abrandava, mas persistia. Então se pôs a refletir sobre qual era a ocorrência real que deveria ser fonte daquele mal-estar.Ninguém, mesmo os mais loucos, se angustiam sem que algo faça disparar o gatilho da ansiedade que vira essa dor pavorosa.
Ela pensou então no efeito estufa e que o calor havia passado. Pensou no calor que impregnava sua mente pela falta da inspiração: aquela falta de significados e o excesso de imagem acústica. Lembrou que, embora fosse óbvio, não teve a idéia de tomar uma ducha. Então, abriu o chuveiro com uma água morna e expôs seu corpo nu que refletia diante do espelho do banheiro como que revelando sua pessoa a algum observador. Era alguém que observava com olhos de ternura e aquele acolhimento fazia a dor sumir.
Aquele olhar imaginário tomou conta de seu corpo. Deixou-se ficar na ducha até que aquele olhar de ternura passou a deixá-la abobalhada como uma criança mimada. Ela cantava uma canção de ninar sem letra para si mesma e imaginava que a voz vinha do olhar perdido do espelho.
Horas se passaram e a campainha tocou. Eulália assustou-se porque aquele som a fez olhar para a direção do ruído e voltou-se para o espelho e o olhar imaginário não estava mais lá. Por mais que imaginasse, não podia mais ver aquele olhar de um amor perdido que acalentava sua dor e retrocedia sua idade até um colo materno e seguro.
A campainha do interfone não insistiu, mas o ruído interferindo no imaginado foi suficiente para romper o êxtase e o que ela via no espelho era seu corpo; mas era um corpo retalhado de onde o sangue não escorria. Então ela desviou rapidamente os olhos, como se sua retina se desviasse de um flesh, e deixou de ver o que era ela no espelho para se salvar e olhou para o próprio corpo. Via agora um corpo sem cortes e sentia na alma os retalhos do que vira no espelho. Ela disse para si mesma: “Aquela era a minha alma corporificada. O espelho mostrou esta imagem real que ninguém entende. Melhor é escrever o que vejo no outro”.
Então começou um romance sobre o cotidiano de pessoas comuns e desnudava neste texto a alteridade que era uma leveza fugidia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário